"Personagens" do Sumidouro

Todos os lugares que conhecemos tem seus personagens. Aqui em sumidouro não é diferente. E falamos sobre isso com profunda saudade de algumas pessoas queridas, que em algumas situações se tornaram referências e até mesmo personagens. Muitas delas infelizmente não estão mais entre nós...  Vamos lembrar aqui duas pessoas. Primeiro, o Sr. Antônio Cirilo. Um homem alto, culto, sempre elegante com seu chapéu e sua latinha de rapé. Muito educado, estava sempre pronto para receber qualquer pessoa em sua humilde casa, ao lado de Dona Laura sua esposa. Tinha sumidouro como sua casa. Recebia amigos de sumidouro e mesmo turistas. Ir a sumidouro sem conhecer o Sr. Antônio Cirilo, era como ir a missa sem padre ou a um culto sem pastor. Assim ele foi por muitos e muitos anos o nosso anfitrião. De costumes simples, conhecia bem todos os moradores, e se gabava de ser um dos homens mais velhos de sumidouro. Contava causos e mais causos como ninguém. Sabia toda a nossa árvore genealógica. Infelizmente, nosso anfitrião nos deixou a alguns anos... E quem não se lembra da Dona "Maria do Estudo"? E seus versos e histórias? Dona Maria Gomes do Nascimento, conhecida como "Maria do Estudo" também é considerada um personagem do sumidouro. Senhora de hábitos simples e muito religiosa, morava atrás da igreja. Morava sozinha, o que trazia um ar de mistério e misticismo. Sempre cuidava de um cachorro e às vezes um gato e um passarinho. Trazia consigo uma latinha de rapé que ela mesma fazia. Benzia de mau olhado, cortava cobreiro e cozia torções. Não perdia uma missa ou reza na igreja. Solteira, não teve filhos. Mas não perdia a chance de passar "cantadas" nos homens casados, claro que sempre na brincadeira e levado como muito respeito. Se achava por fazer aniversário no dia 25 de dezembro. Dizia que fazia aniversário junto com Jesus Cristo. Adorava amendrontar as crianças que eram sapecas e não respeitavam seus pais. Quando uma criança fazia pirraça era só a mãe falar que iria chamar maria do estudo que rapidinho a coisa mudava... mas a marca registrada de dona Maria do estudo eram seus versos. Versos esses que eram compostos na hora, com qualquer tema proposto pelo ouvinte. Dona Maria chegou até a participar do programa Terra de Minas, da TV Globo, onde recitou alguns de seus versos. Alguns memoráveis como " a coruja quando pia anuncia qualquer desgraça, mulher véia que namora de assanhada ela não passa" ou então " Fui na fonte beber água na fuinha do inhamim, não era sede nem nada, era saudade do meu benzim" , e ainda  " (nome sugerido) é um homem de bom parecer, quem bulir com o (nome sugerido) quando eu morrer vai sofrer" e sempre encerrava o seu recital de versos com o inesquecível " Quem quiser que eu conto mais há de me pagar dinheiro, minha boca não é fole e nem é tenda de ferreiro". Curioso é saber que ela sabia ler mas não sabia escrever. Com mais de 70 anos, entrou novamente na escola para se alfabetizar porque dizia ter abandonado os estudos porque a professora da época a agredia por ser canhota. Mas pela dificuldade na visão, seu retorno à escola durou pouco. Também nos deixou a alguns anos, com quase 90 anos.  Esses dois personagens talvez estejam esquecidos na memória dos seus contemporâneos, e são desconhecidos da nova geração. Mas jamais sairão da memória e da história do nosso sumidouro.